Bitolas mistas pelo mundo: 3 casos curiosos fora do Brasil

No Brasil, a convivência entre bitola métrica (1,00m) e bitola larga (1,60m) em trechos de via única com três trilhos — a bitola mista — é uma realidade conhecida de quem acompanha ferrovias em diversas regiões do país.
Mas o que muitos não sabem é que as bitolas mistas são uma solução comum para a quebra de bitola também em outros países — e em alguns lugares, assumem configurações surpreendentemente diferentes das que estamos acostumados por aqui.
Conheça três histórias que mostram como o desafio de lidar com múltiplas bitolas ferroviárias é tema comum na realidade ferroviária de outros países:
Espanha: quando os trilhos ficam quase colados

A bitola comum das ferrovias de Portugal e Espanha é a bitola ibérica, uma bitola larga de 1,668m. No entanto, com a introdução das linhas de alta velocidade na Espanha a partir dos anos 1990, a bitola padrão internacional de 1,435m foi ganhando espaço no país. Vários trechos de ferrovia já ganharam — ou estão ganhando — um terceiro trilho.
Como a diferença entre as duas bitolas é pequena (apenas 233 mm), os trilhos das diferentes bitolas acabam ficando bem próximos um do outro. O resultado é um visual estranho para quem não está acostumado: dois trilhos externos muito juntos, com um terceiro trilho quase encostando em um deles, formando duas bitolas que se sobrepõem numa faixa muito estreita de via.
Essa proximidade tem explicação: quando a diferença entre as bitolas é pequena, o terceiro trilho precisa ser posicionado perto de um dos trilhos externos para acomodar ambas as larguras. Em trechos como Castellbisbál–Tarragona, no Corredor Mediterrâneo, a configuração permite que trens de bitola padrão vindos da França acessem portos e cidades espanholas sem troca de truques ou necessidade de baldeações.
O desafio espanhol é também político. Operadoras concorrentes como Ouigo e Iryo já reclamaram à autoridade de concorrência que a bitola dupla beneficia a Renfe, que tem frota compatível com ambos os sistemas. A bitola mista virou, literalmente, questão de mercado.
Patagônia argentina: o terceiro trilho quase na metade do dormente

Se na Espanha a bitola mista tem dois trilhos bem próximos um do outro, na cidade argentina de Ingeniero Jacobacci, na província de Río Negro, o cenário é completamente diferente. Ali, o terceiro trilho da bitola mista fica quase no meio do dormente, entre os dois trilhos externos.
Isso acontece porque a diferença entre as bitolas é enorme. A bitola externa é de 1,676m (bitola larga argentina), enquanto a bitola interna é de apenas 0,750m — uma diferença de 0,926m. Com tamanha disparidade, o terceiro trilho precisa ser posicionado praticamente no centro dos dormentes para acomodar ambas as bitolas.
Cada bitola tem sua própria história nesta pequena cidade da patagônia. Na larga, percorre o célebre Tren Patagónico, expresso de passageiros que viaja da costa atlântica até Bariloche. Na estreita, corre o trem turístico a vapor La Trochita, fazendo um percurso de 15 km entre Ingeniero Jacobacci e a estação Empalme 648 no meio do deserto patagônico.
Austrália: quando três bitolas se encontram na mesma via

Um dos casos mais emblemáticos de mistura de bitola está na Austrália, onde bitola larga (1,60m), bitola padrão (1,435m) e bitola “métrica” (1,067m) cobrem diferentes partes do território e acabam se encontrando — às vezes as três juntas — nas mesmas localidades.
A origem do problema é colonial. Cada colônia britânica escolheu uma bitola diferente no século XIX: Nova Gales do Sul adotou a bitola padrão, Victoria a larga e Queensland a estreita. Ao federarem em 1901, os trens simplesmente não conseguiam cruzar fronteiras estaduais. Durante décadas, cargas e passageiros precisavam ser transbordados em estações de fronteira.
A solução? Adotar bitolas mistas em alguns trechos e onde as três bitolas precisavam conviver na mesma via, implantar bitola mista tripla: uma linha de trem com 4 trilhos. Assim, em locais como Gladstone e Peterborough, na Austrália do Sul, chegaram a existir pátios com trilhos quádruplos acomodando as três bitolas simultaneamente.
No entanto, a complexidade de implantação e das manutenções dos AMVs (os desvios) é de deixar qualquer ferroviário de cabelo em pé. Agulhas, jacarés e contratrilhos triplicam em complexidade.
Por isso, a Austrália segue investindo em bitola dupla e padronização até hoje, com projetos como o Inland Rail expandindo trechos de três trilhos para conectar o país de norte a sul.
Cada caso, uma solução
As bitolas mistas não são uma peculiaridade brasileira. São respostas locais para um problema global: como operar trens de bitolas diferentes quando não há como — ou não há interesse em — converter toda a rede. A Espanha optou por trilhos próximos e terceiro trilho estratégico. A Argentina mantém um contraste de eras na mesma via. A Austrália viveu o extremo de quatro trilhos lado a lado.
Resta saber se a padronização de bitolas de cada país, sempre planejada e esperada, um dia prevalecerá sobre a convivência. Enquanto isso, trilhos extras seguem dividindo os mesmos dormentes mundo afora — e rendendo ótimas histórias ferroviárias.






