Malha Ferroviária Ativa: Quantos km de Trilhos o Brasil Realmente Usa para Transportar Carga?

Os últimos anos tem sido agitados para as concessões ferroviárias no Brasil, devido às renovações de contratos, novas ferrovias em construção e planos de reativação de ramais. Com isso, a imprensa tem dado cobertura frequente no assunto e é inevitável falar sobre a extensão da malha.
Infelizmente, boa parte da malha ferroviária brasileira que aparece nos mapas (aprox. 30 mil km) está abandonada, perdida debaixo de mato ou sendo esquartejada e ocupada por invasores.
Assim, levanta-se a discussão: dessa malha de 30 mil km, quanto está de fato sendo utilizada por trens de carga? E é aqui que começa a polêmica. Dependendo de onde o leitor pesquisar, encontrará extensões de ferrovias ativas as mais variadas, e boa parte delas ė apenas palpite.
Fala-se de 10 mil km ativos, 12 mil, 13 mil ou até 20 mil km de ferrovia funcionando — dependendo da fonte, do critério que cada um usa para considerar “em operação”, ou da pitada de polêmica que o autor quer dar ao assunto.
A extensão total da malha é consenso
Primeiro, o consenso. A malha ferroviária de carga do Brasil tem pouco mais de 30 mil km de extensão total. A ANTF fala em “mais de 31 mil km”. A Wikipédia, com dados da ANTT, coloca em 30.684 km sob concessão. Já o TCU, em relatório de 2025, cita 29.022 km.
Portanto, algo ao redor de 30 mil km é o número aceito para a malha total.
Mas e a malha ativa? Aí parece que ninguém concorda…
O Globo, citando o presidente da Anut, afirma que apenas 12 mil km estão em operação. O TCU diz que só 13,3 mil km têm tráfego acima de 1 par de trem por dia. A Folha de S.Paulo aponta que 36% da malha está inoperante — implicando que 64% estaria ativa, ou cerca de 19 mil km.
Já a Revista Ferroviária, em entrevista com Bernardo Figueiredo, fala em 20 mil km abandonados. Sobrariam apenas 10 mil km ativos.
Ou seja: dependendo de quem fala, a malha ativa dobra de tamanho.
A pesquisa do Trens e Trilhos
Foi por isso que fomos atrás. Em vez de trabalhar com porcentagens genéricas, o Trens e Trilhos fez uma pesquisa independente, trecho por trecho, ferrovia por ferrovia.
Nosso critério? A circulação de trens de carga remunerados, ou seja, ferrovia transportando carga de clientes, pelo menos uma vez por mês. E assim chegamos a números não perfeitos, mas muito mais precisos da malha que efetivamente opera hoje no Brasil:
- Ferrovia Centro Atlântica: 4.100 km
- MRS: 1.643 km
- Rumo Rondonópolis–Santos: 2.183 km
- Rumo – Ferrovia Estadual do MT: 162 km
- Rumo Ramal Itirapina–Bauru: 163 km
- Rumo Ramal de Pradópolis: 65 km
- Ferrovia Norte Sul (total): 2.257 km
- Rumo Corredor PR–SC: 1.285 km
- Rumo Rio Grande do Sul: 921 km
- Ferrovia Tereza Cristina: 164 km
- Ferroeste: 248 km
- Estrada de Ferro Carajás: 892 km
- Estrada de Ferro Vitória a Minas: 905 km
- Transnordestina: 1.237 km
- Nova Transnordestina: 585 km
Total estimado: 16.810 km.
O que isso significa
O número do Trens e Trilhos — cerca de 16,8 mil km — fica no meio do caminho entre os extremos. Representa pouco mais da metade da malha declarada de ~30,5 mil km. Em outras palavras: quase metade dos trilhos do Brasil está parada.
Isso bate com o quadro pintado pelo TCU, que classificou 64% da malha como subutilizada. Também dialoga com o estudo do BID, que identificou 7.412 km em 37 trechos abandonados com potencial de reativação.
O que vem pela frente
Felizmente, esse cenário pode mudar. O governo federal prevê R$ 127 bilhões em novas concessões ferroviárias, com leilões que prometem devolver vários trechos à ativa.
Além disso, há ainda cerca de 4 mil km de ferrovias em projeto avançado ou já em obras atualmente, que uma vez inaugurados, deve puxar para cima o percentual total ativo da malha.
Na pipeline de expansão, destacam-se a Ferrogrão (933 km ligando Sinop ao porto de Miritituba), a união de FICO e FIOL (mais de 1,7 mil km de corredor transversal), o Anel Ferroviário do Sudeste (575 km entre Rio e Espírito Santo) e o término das obras da Transnordestina de Eliseu Martins ao porto de Pecém no Ceará, que deve mais do que dobrar os aprox. 585km já ativos hoje.
Quando os novos contratos de concessão forem assinados e as obras em andamento forem concluídas, a malha ativa vai finalmente voltar a crescer depois de décadas estagnada.
Por enquanto, o Brasil segue majoritariamente rodoviário por força da inércia, enquanto quase metade da malha ferroviária ainda aguarda novos (e melhores) momentos.






