Malha Sul: O Maior Leilão Ferroviário do Brasil Sai em 2027

O Brasil está prestes a viver um momento histórico no setor ferroviário. A nova concessão da Malha Sul — uma das maiores operações de infraestrutura do país — deve ocorrer em 2027. Se você acompanha o mercado de transportes, logística ou investimentos, este artigo é essencial. Vamos aos detalhes.
O Que é a Malha Sul
A Malha Sul é a malha ferroviária que conecta o estado de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — quatro estados que movem bilhões em agronegócio, produtos de consumo e manufatura.
A atual concessão, a cargo da Rumo Logística, vence esse ano e nem o governo federal nem a concessionária tem interesse em renovar o contrato. Assim, a malha será leiloada a novos investidores, sob um contrato e modelo de concessão cheio de novidades.
Com 7.223 km de extensão em bitola métrica, a área de influência da Malha Sul responde por 25% do PIB brasileiro.
Apesar de sua grande importância, mais de 70% das linhas estão com capacidade ociosa ou com tráfego suspenso, devido à falta de manutenção, abandono e danos causados pelas chuvas no RS em 2024. Assim, a necessidade de investimentos será um grande desafio para o sucesso dos leilões.
Três Corredores, Três Leilões Separados
Devido à complexidade dos fluxos logísticos e visando pulverizar o controle da malha, o governo federal vai dividir a concessão da Malha Sul em três corredores distintos:
1. Corredor Paraná-Santa Catarina
Com 1.502 quilômetros de extensão, é hoje o principal gerador de receitas. Devido ao abandono do resto da malha, este corredor concentra 78% de toda a carga movimentada, especialmente produção agrícola para exportação. Investimento estimado: R$ 4,7 bilhões.
2. Corredor Rio Grande
Soma 880 quilômetros e cobre as principais rotas do RS, incluindo a importante conexão com o porto de Rio Grande. Essa malha também tem foco no transporte de produtos agrícolas, tanto para o mercado interno como para exportação.
3. Corredor Mercosul
Se estende desde o interior do estado de São Paulo até a fronteira com a Argentina, no Rio Grande do Sul passando por Paraná e Santa Catarina, formando uma malha integrada com ou outros dois corredores.
Esse corredor tem foco na integração interregional de cargas agrícolas e combustíveis, além do transporte de containers com carga geral entre São Paulo e estados do Sul e Mercosul.
A divisão da Malha Sul em três corredores pulveriza a operação da malha, reduzindo monopólios, melhorando o controle e fiscalização da concessão por parte do governo. Ao mesmo tempo, permite um equilíbrio saudável entre competição e colaboração entre as novas concessionárias
R$ 14,4 Bilhões em Investimento
O governo projeta um aporte de R$ 14,4 bilhões em investimentos (CAPEX) ao longo do contrato de concessão. Mas esse valor pode aumentar, já que o leilão será decidido por quem oferecer o maior investimento.
Esses recursos devem ir para:
- Modernização de trilhos e infraestrutura
- Aquisição de locomotivas e vagões
- Sistemas de sinalização e segurança
- Ampliação de capacidade operacional
30 Anos de Concessão e Modelo de Investimento Cruzado
O contrato de concessão terá a duração padrão de 30 anos — tempo suficiente para os concessionários recuperarem o investimento e gerar lucro.
Uma novidade na nova concessão da Malha Sul: o governo está discutindo um modelo de investimento cruzado. Ou seja, o lucro do concessionário de um trecho será usado para investir em outro, criando um equilíbrio financeiro que beneficia a Malha Sul como um todo.
Assim, o governo garante que trechos com menor potencial não sejam abandonados em detrimento dos mais lucrativos, como aconteceu na concessão atual, vigente desde 1997.
Cargas Potenciais em Cada Corredor
Corredor Paraná-Santa Catarina:
- Soja e milho (maior volume)
- Fertilizantes e insumos agrícolas
- Produtos industrializados (papel, celulose, alimentos)
Corredor Rio Grande:
- Soja, milho e trigo
- Fertilizantes e insumos agrícolas
Corredor Mercosul:
- Carga geral containerizada (inclusive de importação/exportação para a Argentina)
- Produtos agrícolas, em especial trigo e arroz
- Combustíveis
Consultas Públicas: Quando e Onde
A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) abriu audiências públicas em junho de 2026 para discutir o modelo de concessão com estados, operadores e sociedade civil. Essas audiências são cruciais porque:
- Permitem que estados do Sul apresentem suas preocupações
- Operadores podem sugerir ajustes no edital
- Sociedade civil pode questionar impactos ambientais e sociais
O cronograma previsto é:
- Junho 2026: Audiências públicas (em andamento)
- Julho-Agosto 2026: Ajustes no edital baseado nas contribuições colhidas nas audiências públicas
- Segundo semestre de 2026: Publicação do edital final
- Março 2027: Leilão (data estimada)
A Comitiva Brasileira na China: Atraindo Investidores
O Brasil enviou em junho uma comitiva a Pequim para apresentar a carteira de projetos de infraestrutura que vão a leilão nos próximos meses e em 2027, incluindo a concessão da Malha Sul, a investidores chineses.
O interesse da China é estratégico em ferrovias brasileiras, já que controlando a via de escoamento da produção agrícola, eles controlam praticamente toda a cadeia de suprimentos. Vale lembrar que mais de 50% da soja exportada pelo Brasil vai para a China.
Por outro lado, o Brasil também tem a ganhar com chineses operando nossas ferrovias, pois além de deter tecnologia de ponta e capacidade de investimento, a China é líder global em construção e operação de ferrovias.
Segundo acordo assinado entre Brasil e China, a estatal chinesa China State Railway Group realizará estudos sobre a malha ferroviária brasileira, considerando integração multimodal e oportunidades de investimento.
Isso não significa que a China vai operar a Malha Sul, mas certamente pode ser um dos licitantes no leilão.
Próximas Etapas
Depois das consultas públicas, ajustes finais e aprovação pelo TCU, o edital deve ser publicado no segundo semestre deste ano, com leilão previsto para 2027.
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