Rumo: disputa por fatia de R$ 5 bilhões chega à reta final com Grupo México na frente

Trem graneleiro da Rumo Logística: disputa por fatia de controle chega à disputa final com 2 conglomerados interessados.
Venda da Rumo Logística: com dois conglomerados interessados, disputa entra na reta final. Fonte: Trens e Trilhos

A venda de uma fatia da Rumo Logística entrou na reta final. Propostas vinculantes já estão sobre a mesa para cerca de 15% da companhia, avaliados em algo como R$ 5 bilhões. A Cosan, controladora da Rumo e acionista de referência com pouco mais de 20% das ações, comanda o processo — e ao vender apenas uma fatia minoritária, evita disparar uma OPA (Oferta Pública de Ações) sobre a totalidade dos papéis.

A Rumo vale mais de R$ 24 bilhões em bolsa, mas tem 75,6% das ações dispersas no mercado. O modelo de venda de uma fatia de controle, porém, pede prêmio em relação à cotação.

Justamente por isso, o valor virou tema de debate interno entre os sócios da Cosan — Rubens Ometto, BTG Pactual e Perfin. A visão de parte do grupo é que o ativo está com preço depreciado em Bolsa, e a fase vinculativa tem andado mais devagar do que os vendedores gostariam.

Os três nomes na reta final

O Grupo México aparece como favorito, segundo fontes próximas à transação. O conglomerado mexicano, com 87 anos de história, é o terceiro maior produtor de cobre do mundo e controla a Ferromex, a maior ferrovia de cargas do México, operando mais de 10.000 km de linhas. 

Em 2025, a Ferromex anunciou investimentos acima de US$ 400 milhões. Vale lembrar que a malha ferroviária mexicana é integrada a ferrovias americanas, compartilhando a mesma bitola, padrões de operação, material rodante e fluxos de transporte. Assim, a experiência ferroviária do Grupo México pode trazer know-how valioso para a gestão e operação da Rumo.

A Cofco teria feito proposta conjunta com a Bunge. A estatal chinesa é uma das maiores empresas de agronegócio e alimentos da China, com 12,4 mil colaboradores em 36 países e receita de US$ 38,5 bilhões. No Brasil há uma década, já tem relação direta com a Rumo — investiu R$ 1,2 bilhão em vagões e locomotivas em operação conjunta com a ferrovia.

A Bunge, fundada em 1818 e presente no Brasil desde 1905, concluiu em 2025 a fusão com a Viterra, criando uma potência mundial em alimentos e combustíveis. Movimenta mais de 70 milhões de toneladas de grãos só na América do Sul. Juntas, Cofco e Bunge formam uma proposta com peso estratégico: quem compra a fatia não apenas entra no controle da ferrovia, mas também garante relação comercial de altíssimo volume no corredor logístico. 

No entanto, fontes citam risco de problemas no CADE caso a Cofco/Bunge ganhe a disputa, devido a conflito de interesses — elas são dois dos maiores clientes da ferrovia.

Quem saiu da disputa

O Grupo Ultra deixou o processo antes da fase vinculante por falta de consenso em relação ao preço. A Inpasa, biorrefinaria de grãos que também participou, afirmou em nota que “não fez proposta vinculante pelo ativo”. Segundo fontes, avaliou que o capex era alto e as margens apertadas — dois itens que fizeram a companhia desistir.

Apenas uma fatia — mas com peso estratégico

A Rumo tem uma das principais malhas ferroviárias de carga do Brasil, conectando regiões produtoras do agronegócio aos principais portos exportadores do país. O ativo é considerado atraente por essa posição, mas enfrenta desafios macroeconômicos. O que está em jogo não é apenas uma transação de R$ 5 bilhões — é o futuro do controle de uma peça estratégica da infraestrutura logística voltada ao agronegócio brasileiro.

Locomotiva da Rumo Logística levando trem graneleiro: controle da empresa deve mudar de mãos depois da venda.
Trem da Rumo Logística: controle da empresa deve trocar de mãos com venda bilhonária. Fonte Trens e Trilhos.

Enquanto o mercado acompanha as propostas, em Mato Grosso a notícia da venda foi recebida com atenção redobrada. Isso porque a Rumo é a responsável pela construção da Ferrovia Estadual de Mato Grosso, importante obra de infraestrutura impulsionando a economia mato-grossense, com projeto estimado em R$ 15 bilhões para ligar Rondonópolis a Lucas do Rio Verde, com ramal previsto até Cuiabá. 

Autoridades mato-grossenses aguardam com apreensão o desfecho da negociação, temendo que uma eventual mudança de prioridades do novo controlador possa afetar o cronograma de expansão da ferrovia, que teve seu primeiro trecho de 162 km inaugurado em junho deste ano. 

A Rumo, no entanto, já adiantou que não prevê investimentos nessa expansão em 2027, devendo manter o foco em gerar caixa. Até lá, a ferrovia deve ter um novo grupo controlador e muita coisa pode mudar.

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